Casa do Consolador

No ventre do deserto,
onde até o tempo parecia ter parado,
vivia uma árvore —
não por força,
mas por hábito.

Seus galhos,
longos e finos como dedos fatigados,
erguiam-se ao céu não mais em prece, apenas por memória.

O céu não respondia.
O vento passava por ela
como quem não pede licença
e sem nunca chamá-la pelo nome.
E mesmo assim, ela se deixava tocar.

As noites a atravessavam frias,
os dias a queimavam em silêncio.
E ela ficava ali,
sem glória,
como quem aprendeu
a ser presença
num mundo que não vê.

As raízes ficaram rasas.
Desistiram de buscar as promessas nas profundezas.

Às vezes,
quando as estrelas piscavam devagar
e o céu vestia um azul aveludado,
ela olhava para cima e se esquecia ainda mais.

Um dia,
num entardecer sem pressa,
quando o céu era só um sussurro
entre o azul e o dourado,
e ela já se preparava para receber as estrelas
em seu jardim distante,
algo aconteceu.

Foi uma memória —
não de um fato,
mas de uma sensação.

Um calor tênue,
vindo de dentro.

Talvez um sonho.
Ou uma saudade
de algo que ela não lembrava mais.

Mas ali,
entre o balançar tímido
e o silêncio que fazia eco em sua casca,
ela se lembrou:
havia vida nela.

Uma centelha —
teimosa, invisível, intacta.

E essa lembrança de ser,
foi o que bastou.

Sem saber por quê,
sem esperar retorno,
sem promessa de chuva ou aplauso,
ela enfiou as raízes para dentro.

Não como quem procura,
mas como quem responde.

Ao quê?
Nem ela sabia.

Talvez ao chamado de algo que mora no centro da Terra
e fala com as árvores em silêncio.

E então,
com a coragem das coisas cansadas,
ela desceu.

Afundou suas raízes
por entre camadas esquecidas,
com a delicadeza de quem já viveu demais para correr.

A areia cedeu devagar,
como se a reconhecesse.
E no mais profundo do silêncio,
ela tocou um fio d’água.

Não era muito.
Era quase nada.
Mas era.

E isso bastava.

As raízes se entrelaçaram àquela ternura líquida
como quem segura olhos ingênuos que adormeceram em paz.

E naquele abraço úmido,
a árvore soube:
a vida voltava.

A seiva percorreu os galhos
como lágrimas que encontram caminho.
E com o tempo,
flores miúdas começaram a surgir.

Pálidas.
Tímidas.

Como quem pede permissão para existir.

O deserto não notou.
O sol seguiu implacável.
Mas algo havia mudado.

E a árvore,
em seu florescer manso,
entendeu:

não era preciso ser vista,
nem celebrada.

Bastava escavar fundo o suficiente
para encontrar dentro de si
um fio de vida.

E escolher,
dia após dia,
florescer em segredo

Débora Zanini – 21/10/2025